Uma Londres que chama, acolhe e discrimina

No começo era apenas uma viagem de intercâmbio, como tantas outras que brasileiros fazem ao exterior para aprender um novo idioma ou outro tipo de curso. Mas a então estudante de Jornalismo Adriana Farias, que passou quatro meses em Londres estudando inglês, decidiu transformar essa experiência em Trabalho de Conclusão de Curso. Depois de formada pela PUC-SP em 2011 e de algumas atualizações, chegou às livrarias como “London Calling – histórias de brasileiros em Londres”, lançado neste ano pela editora Giostri.

Para quem já teve alguma vivência fora do país é bem fácil se identificar com qualquer uma das histórias contadas por Adriana no livro, seja no estranhamento, na sensação de liberdade ao conhecer uma nova cultura ou nos “perrengues” que muitos intercambistas ou imigrantes já enfrentaram – e ainda enfrentam – em terras estrangeiras.

Tem uma paulista que, aos 37 anos, decidiu largar um emprego estável e foi conhecer a Europa; dois gêmeos cariocas que trancaram a faculdade no Rio de Janeiro e viraram mochileiros no Velho Mundo; um intercambista que enfrentou constrangimentos por ter pele morena, estatura média e ossos largos, além de problemas com a acomodação alugada para a estadia na capital londrina, entre outros.

Dentre os relatos, no entanto, o de maior destaque e impacto é o de Alex Pereira, ninguém menos que o primo de Jean Charles de Menezes, morto pela polícia no Metrô de Londres em 22 de julho de 2005. Devido à amplitude desse episódio, ele será abordado em especial no próximo post, na segunda parte da entrevista com a autora. A primeira segue abaixo, na qual Adriana conta como foi o processo de evolução do projeto de TCC para livro e também das experiências que relatou e viveu na capital britânica:

De onde veio a ideia de transformar a experiência na Terra da Rainha em TCC e, depois, em livro? O que te inspirou?
A viagem para Londres foi a minha primeira experiência internacional, então fui com dois olhares, o de jornalista e o de criança, puro e sempre de olho em tudo sem deixar escapar nada. Lá, eu passei a conviver com muitos estrangeiros, mas as histórias dos brasileiros que moravam lá me fascinavam e me horrorizavam também. Cheguei no Brasil completamente transformada e inspirada por essa experiência. A princípio, o meu TCC seria em dupla e com outro tema, mas numa certa noite eu comecei a ler o livro “Da Rosa ao Pó”, do jornalista Gustavo Silva, sobre as histórias que ele descobriu do pós-genocídio na Bósnia. E percebi que o que eu vivi em Londres com os brasileiros que eu encontrei poderia virar o meu TCC, em formato de livro. Eram 4h da manhã quando levantei da cama e mandei um e-mail para o meu orientador perguntando se ele concordava com a ideia de mudar de tema aos 45 minutos do segundo tempo. Com a resposta afirmativa dele eu não tive dúvidas, desmanchei a minha dupla e parti para a empreitada.

O que mudou no decorrer do TCC e no percurso até a obra chegar às livrarias?
Comecei o meu TCC já com a intenção de que ele poderia virar um livro comerciável. É claro que algumas coisas foram me decepcionando no meio do caminho, como alguns bons personagens que não queriam participar, conciliar o trabalho com a produção do TCC, problemas técnicos com ele, entre outros. Mas eu estava muito confiante e apaixonada pelo tema, que eu havia vivenciado. E por que não lançar um livro de brasileiros em Londres, que é uma cidade tão impregnada no imaginário popular?

Aproveitando uma pergunta que você fez aos entrevistados para o livro: Para você o que Londres é e o que Londres não é?
Para mim Londres é vida! É a possibilidade de você conhecer o mundo todo em apenas um lugar onde a diversidade cultural impera. Poxa, é o país do punk que questionou a pompa da sociedade britânica, quebrou paradigmas e trouxe uma nova forma de encarar a música, como peça chave para entender as angústias do povo. E para mim Londres não é um país onde as coisas caem do céu, onde tudo é maravilhoso e nada dá errado. Aquele famoso ônibus vermelho de dois andares pode estar impregnado de preconceito e xenofobia.

O que você sentiu ao voltar para o Brasil? Houve algum tipo de choque?
Sim! Fiquei menos de um semestre, infelizmente. Quando voltei foi inevitável fazer as comparações sobre a nossa mobilidade urbana e a deles, o hábito dos ingleses de ler no metrô, mas foi muito bom ter voltado e ter aprendido a dar mais valor para a nossa cidade e o que está ao nosso redor. Uma coisa muito legal é que alguns dos personagens do meu livro que voltaram ao Brasil souberam disseminar e contagiar os colegas de trabalho, família e amigos com as experiências que tiveram em Londres. Muitos deles estão hoje ajudando a construir uma cidade melhor a partir do que aprenderam lá fora. Isso teria valido um capítulo extra ao meu livro, mas não deu.

Que tipo de retorno você tem recebido do livro London Calling, seja por parte dos leitores, seja em relação aos personagens?
Muitas pessoas leram o livro em 2 dias! O retorno têm sido muito positivo e, para falar a verdade, emocionante! Quando um leitor me escreve dizendo que o livro o inspirou a ter uma vida mais criativa e engajada eu fico muito contente, porque a intenção era essa mesma. Tirar as pessoas do comodismo e mostrar que existe um mundo lá fora a espera delas e que não é impossível sair do país; ou mesmo sair de São Paulo e ir conhecer a zona leste, ou até ir ver aquele museu que fica do lado da sua casa.

Você saberia traçar um “antes e depois” de si própria, sobre como você era antes da sua experiência em Londres e como voltou da viagem?
A conclusão do livro é exatamente o antes e o depois não só de mim, mas de todos os personagens da obra. Londres me ajudou a enxergar um outro Brasil. A busca de experiências autênticas foi um compromisso que me transformou irreversivelmente e fez surgir uma nova versão de mim mesma. Parei de ler as histórias dos outros e fui trilhar a minha própria.

Livro: London Calling – Histórias de Brasileiros em Londres
Autora: Adriana Farias
Editora Giostri
196 páginas – R$ 38

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Sobre Rodrigo Borges Delfim

Jornalista, formado pela PUC-SP, focado em migrações, direitos humanos e políticas públicas. É responsável pelo MigraMundo, site fundado em 2012 com intuito de acompanhar notícias e debates sobre migrações, em especial a contemporânea.
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4 respostas para Uma Londres que chama, acolhe e discrimina

  1. Rodrigo,
    Eu fui uma dessas pessoas que li o livro em dois dias. Para falar a verdade, devorei! A Adriana escreve de um jeito muito gostoso e é uma leitura que flui bastante. Recomendo para qualquer um.

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  2. Pingback: meonthestreet

  3. Pingback: Entrevista sobre “London Calling” no blog do jornalista do UOL | meonthestreet

  4. RENATA disse:

    Tb estou lendo o livro e acabando em menos de 48 hs..rs é essencial para quem pretende fazer uma viagem internacional, em especial, à Londres. adorei a falta de sorte do José Eduardo…rss
    ri mto.

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